Gravidez de múltiplos: quando a informação supera o risco (Parte 2: Memórias de uma UTI Neonatal)

Enfeites de Natal com papelão :: Clube do Baú
December 12, 2017
Nosso olhar por trás do Baú
December 18, 2017

Gravidez de múltiplos: quando a informação supera o risco (Parte 2: Memórias de uma UTI Neonatal)

Gravidez de múltiplos: quando a informação supera o risco

(Parte 2: Memórias de uma UTI Neonatal)

Muito se fala sobre ser “mãe de UTI”. Depois de ter vivido essa experiência com meus trigêmeos que nasceram prematuros, só posso ter um imenso respeito por todas as mulheres que já passaram dias, semanas e meses nesta condição incomparável, nem sempre com final feliz como foi para mim.

Receber alta e deixar o filho (ou os filhos) no hospital é algo que marca a mãe para sempre. Mas creio que podemos dar outro significado para essa memória e é sobre isso que eu escolhi escrever. Eu ressignifiquei esta lembrança logo nos primeiros dias após o meu parto graças a muita informação e graças ao maravilhoso acolhimento que recebi na UTI Neonatal.

Antes de dar passos lentos e arrastados de quem havia passado por uma cesárea há poucas horas e colocar meus pés pela primeira vez naquele salão cheio de regras, equipamentos apitando e muita luta pela vida, eu já sabia que isso poderia acontecer. Então, desde que eu soube do risco que envolve uma gestação múltipla, escolhi me informar. Li tudo que achei a respeito e fui muito bem preparada pelas participantes do grupo de mães de trigêmeos sobre o qual já escrevi aqui.

Tenho plena certeza de que não ter sido surpreendida com a ida do trio para a UTI foi uma grande ajuda, mas, infelizmente, a maioria das mulheres nem cogita essa possibilidade na gravidez. Os médicos e os cursinhos preparatórios também não tocam no assunto. A minha vantagem foi já saber dessa possiblidade e ter acesso a muitos relatos que me ajudaram a entender que lá era o lugar em que os bebês tinham que estar, só lá poderiam receber o suporte necessário para crescerem, ganharem peso e irem para casa. Isso gerou a aceitação que fez toda a diferença. 

O outro fator fundamental foi o cuidado (que eu prefiro chamar de amor). Fui para a UTI por volta da meia-noite e meia (o trio nasceu entre 15h41 e 15h44) levada de cadeira de rodas por uma profissional de enfermagem que me deixou na porta. Entrei devagar, tentando adivinhar onde estavam Alice, Max e Olívia e pensando que eles estavam pela primeira vez separados, cada um em sua incubadora.

Não foi preciso dar mais do que dois passos e alguém disse: “A mãe chegou!” e uma enfermeira se aproximou me olhando nos olhos, com firmeza (não havia pena naquele olhar). Ela se apresentou e, a partir de então, nunca me faltou nenhuma orientação, apoio e carinho. Ela me mostrou onde os bebês estavam, me explicou os protocolos de higiene e se posicionou com certa distância, me deixando viver nosso reencontro com privacidade, mas sem nos perder de vista.

Enquanto os bebês ficaram internados, todos os dias éramos atendidos por um médico/médica neonatologista que fazia um relato detalhado do histórico de cada bebê, mas fora desses horários, nunca nos sentimos sozinhos ou com dúvidas. Isso é algo que a gente não esquece.

O suporte em uma UTI Neo é multiprofissional. Técnicas de enfermagem, enfermeiras, fisioterapeutas, fonoaudiólogas, psicóloga e médicos estão ali ao nosso alcance para também nos ensinar tudo que precisamos aprender. Sejam os detalhes de um procedimento ao qual  o bebê será submetido ou como trocar a fralda, como dar banho e como amamentar. São eles que nos ajudam a fazer canguru (quando o bebê é colocado pele a pele com a mãe ou o pai) e demonstram sempre saber a importância de cada contato. São eles que sabem como dar notícias, sejam boas ou não, são eles que decoram o leito quando a criança completa um mês, nos lembrando que temos que comemorar, e são eles que choram com a gente na despedida.

Eu poderia contar várias passagens para exemplificar tudo isso e provavelmente voltarei a falar da UTI. Mas neste momento, fica o meu reconhecimento e a minha gratidão a todas as pessoas que nos atenderam e cuidaram dos nossos filhos. Vocês me ensinaram muito e tornaram o meu tempo de mãe de UTI recheado de boas memórias.

Obs.: Foram 9 (Alice), 11 (Max) e 13 (Olívia) dias de UTI Neo e depois cada um ficou mais um tempo na unidade semi-intensiva para terminar de ganhar peso e poder ir para casa. Em ambos setores fomos muito acolhidos e assistidos. Guardamos todas aquelas pessoas no coração e torcemos para que todos os pais de UTI tenham o mesmo privilégio que nós.

 

Evenize Batista
Evenize Batista
Mãe dos trigêmeos Alice, Max e Olívia e de uma cachorra chamada Nina. Jornalista (casada com outro jornalista) que já amou ser repórter e ama as descobertas e oportunidades que a profissão proporciona. Trabalha atualmente como assessora de imprensa e professora universitária, mas, de todos os papéis que já exerceu o mais importante de todos está sendo o de mãe. Neste espaço, compartilhará histórias reais e sentimentos e falará de maternidade, crianças, como é ser mãe de trigêmeos e com esses temas inevitavelmente, também falará de amor.
  • Juliana Bianchi Cardoso

    Impossível não se emocionar! Minha professora linda. Mais linda ainda com os trigêmeos!