Onde mora a esperança quando o negro nos invade?

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Onde mora a esperança quando o negro nos invade?

15 de Outubro de 2015. Já faz mais de um mês, mas ainda se sente o cheiro a queimado quando atravessamos a estrada nacional às primeiras horas da manhã. Ladeados pela bruma matinal que cobre esta floresta negra, tento imaginar o terror de quem viu um mar de chamas em fúria a descer pela montanha a uma velocidade inimaginável e incontrolável.

Bastou uma semana para que a natureza cobrisse de verde a terra queimada. Só os troncos, pretos, permanecem iguais, à espera do corte derradeiro e inevitável. A madeira queimada tem no máximo 3 meses até poder ser vendida por um preço razoável, mas sempre inferior ao valor que seria pago pela madeira verde.

Apesar da conjugação “perfeita” dos 3 elementos que naquele dia se reuniram – temperaturas elevadas, ventos ciclónicos e seca extrema – todos sabemos que a mão criminosa também ajudou na concretização desta catástrofe, que alguns apelidam de natural.

Percorrer agora os caminhos rurais que nos levam de aldeia em aldeia, é perdermo-nos nas memórias que gravámos com prazer e que nos guiavam de olhos fechados pelo meio da floresta, outrora encantada pelos cheiros, sons e cores da natureza.

Agora, tudo é negro. Carvalhos e pinheiros, giestas e azevinhos, não se distinguem na negritude que os cobriu, dificultando-nos a orientação.

Nada voltará a ser como era, mas lentamente habituaremos os nossos olhos a uma nova realidade.

E entre o negro da floresta ardida, resta o olhar vazio de quem perdeu tudo. De quem tinha na agricultura o seu sustento e nas rotinas do mundo rural a segurança que a cadência das tarefas trazem a cada estação.

Perderam as casas construídas em vales verdejantes, perderam as cartas guardadas com carinho da avó que vive longe, perderam aquele lugar que idealizaram nos seus sonhos como o seu lugar para viver.

Por agora restam as memórias.

Vamos esperar que a esperança, da cor da natureza, também renasça.

 

Joana Travessas
Joana Travessas

Chegada à metade da vida, procuro encontrar nas minhas ignorâncias, o que sempre procurei na sabedoria dos outros, fazendo as escolhas mais acertadas e não apenas aquelas que considero certas. Na Casa das Palmeiras troquei o salto alto pelas galochas, abracei um projecto de turismo rural e descobri que é na simplicidade dos momentos que a felicidade reside.