Quando a infância resiste num recorte de memória

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Quando a infância resiste num recorte de memória

Pois então foi, por meio de uma carta, que a Fada dos Dentes visitou meu filho.

Antes de contar sobre isso, gostaria de citar um texto de Tatiana Belinky no livro Papai Noel, um velhinho de muitos nomes, da Companhia das Letrinhas, que reúne contos de vários autores com ilustrações de Maria Eugênia. Na apresentação desse livro, a saudosa escritora sai em defesa do folclore do bom velhinho e diz por que ela não acha que é mentira, tão pouco enganação, o que fazem com as crianças quando se conta a história do homem de roupa vermelha que anda num trenó voador puxado por renas. Destaco um dos trechos desse texto da Tatiana, muito bonito por dar conta de uma inteligência infantil sempre a frente da dos adultos: “como se as crianças, desde pequeninas, não soubessem muito bem o que é faz-de-conta, e não embarcassem nessa fantasia, como em tantas outras, e não desembarcassem quando bem lhe apetecesse”.

Além de gostar de ver Tatiana defendendo, na verdade, uma das características da infância, a fantasia do real, isso ativa instantaneamente uma das memórias mais deliciosas que tenho. Preciso contar. Quando pequena, sempre passávamos as festas de fim de ano na Rua Curuzu, no casarão antigo que era dos meus avós Luiz e Antonieta, em Botucatu. Vovó fazia aniversário dia 30 de dezembro então era mais um motivo para a reunião familiar que contava com os cinco filhos do vovô e da vovó, genros e noras e seus 17 netos, além de amigos da família (ah quantas histórias estou me lembrando). Saíamos batendo colher de pau nas tampas de panela na passagem de ano e era tudo uma farra. Mas o que me faz meu coração descompassar feliz é algo tão singelo.

Falo da pequena árvore do quintal enfeitada pelo meu avô com lâmpadas coloridas. Não eram essas luzes pequenas. Eram lâmpadas incandescentes nas cores azul, vermelha, amarela e verde. Até hoje adoro brincar com luzes pela casa, mas uma prazerosa áurea de mistério sinto apenas quando me transfiro para aquele instante, para aquela escuridão do quintal iluminada por um certo encanto.

Parecia que o Papai Noel surgiria a qualquer momento. Essa memória embrulha meu coração em panos macios e só se compara a outra sensação que ali mesmo eu vivia. Sentávamos, eu e minhas primas Viviane, Paula e Renata, no banco do quintal na noite de Natal olhando para o céu esperando o trenó do barbudo. O telhado era gigantesco e o azul escuro do céu estrelado era cremoso como cobertura de bolo salpicado de confeitos.

Nunca vimos o Papai Noel. Dormíamos antes. Não aguentávamos ficar acordadas porque já tínhamos brincado tanto durante o dia. Mas a espera, a possibilidade de viver algo mágico, a esperança de todos os anos compartilhada com nossos pares, nesse caso com minhas primas, já bastava para me alimentar de uma satisfação mágica.

Acabei encontrando o Papai Noel num dos raros Natais que passamos em nossa casa em Sorocaba. A porta da rua ficava num nível mais baixo que a da garagem. Escutei um sininho – igual a um sininho que minha mãe tinha – e corri para garagem. Vi, por baixo do carro, a bota do Papai Noel – igual a que meu irmão usava no Tiro de Guerra. Ele me deixou uma máquina de costura, embrulhada num papel marrom feito chocolate da Wanel – igual aos pacotes que meu irmão fazia quando trabalhava nessa loja. É o único presente de Natal do qual me lembro (e o único grande presente de Natal que recebi). Não me lembro dos outros, não porque não foram significativos, mas porque de fato não eram o mais importante dessas festas.

Cresci. E ainda lembro o quanto de verdade tinha nos pés do meu irmão dentro daquele circo armado para a caçulinha da casa.

Uns poucos anos atrás eu me sentei sozinha no banco do quintal da casa que era dos meus avós. Tantos acontecimentos entre a infância e aquele momento. Mas o telhado é o mesmo, embora suas proporções tenham diminuído. Só não se apequenou a saudade de um tempo em que o espírito de Natal pulsava em mim sem eu ter noção de que ele existia. Filha e neta de cristãos, eu sabia sim o real motivo da celebração do Natal, mas pude viver a fantasia. Eram tempos de esperança e de crença em algo que não se via, mas se sentia. Não é esse o princípio da fé?

Creio que foi na infância que Deus escondeu o portal para um mundo melhor e gosto de imaginar um Cristo se divertindo e se emocionando com a pureza das crianças e sabendo que independente da história que contam para elas, elas permanecem ali, fieis às suas capacidades de entrar e sair da fantasia do real, leais ao compartilhar com seus pares seus sonhos e esperança. Sem qualquer julgamento.

Ah sim, eu comecei lembrando o texto da Belinky para justificar, mais uma vez, ter sido eu a Fada dos Dentes do meu filho. Desculpem, mas já ocupei muito espaço aqui. É que minhas boas memórias, quando acordam, me atropelam. E essas foram oportunas para o momento. Conto sobre a carta e a reação do Anthony no próximo encontro, agora no próximo ano.

Deixo a todos meu desejo de um Natal de paz e esperança, independente da fé que professem. Ou que nenhuma professem. Que na celebração das Boas Novas, o amor renasça. E a capacidade de fantasiar como as crianças também.

Andrea Alves
Andrea Alves

Andrea Alves já trabalhou como jornalista e agora narra histórias, media leituras e procura pequenas belezas escondidas no dia a dia. É mãe da Allanis e do Anthony, casada com um apoiador de seus desejos malucos e é a caçula de uma família grande que fala bastante. Adora ler bons livros. Gosta de ouvir, contar, ler e escrever histórias que envolvam gente e tudo que faz parte da vida!