Ressignificar a memória do próximo

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Ressignificar a memória do próximo

Em meu trabalho como docente, busco ao máximo tratar as situações das mais variadas com certa sutileza, pois acredito que a gentileza tem um poder transformador. Sempre fui avessa às situações em que profissionais expõem negativamente aqueles que se encontram, naquele momento, em uma posição mais frágil. Por isso, minhas aulas funcionam como troca, ou seja, o aluno também promove o conhecimento, e, portanto, que seja com respeito a todos os presentes.

Algumas vezes, recebo atividades realizadas com tanto empenho que apresento publicamente o autor, para dialogar com a sala e mostrar possíveis caminhos trilhados pelos alunos. A intenção é justamente apresentar o potencial dos alunos, na tentativa de manter o autor em seu desempenho e incentivar os demais.

Certa vez, quando avaliava publicamente um trabalho de monografia, do curso de Publicidade e Propaganda, o presidente da banca, o prof. Walter de Luca, perguntou ao aluno se ele gostaria de dizer alguma coisa à banca avaliadora. O aluno, então, disse que gostaria de contar uma história…

“_ Quando eu estava na escola, a professora chamou o meu nome e começou a ler a minha redação em voz alta, enquanto apontava todos os erros, dizendo para os demais alunos o que eles não deveriam fazer. Me senti humilhado e por vezes pensei em deixar os estudos. Tinha medo de escrever qualquer texto. Entrei para a faculdade e, por muitos motivos, decidi trancá-la. A insegurança era um deles. Voltei para o curso alguns anos depois e, logo na primeira disciplina que cursei, tive que enfrentar o meu medo. Era a disciplina de Cultura e a prof. Thífani chamou o meu nome e começou a ler as minhas respostas da prova. Eu me senti muito mal naquele momento e pensei: se ela apontar as minhas falhas, eu vou deixar os estudos para sempre. Mas não era isso. Ela elogiava as minhas respostas enquanto dialogava com a sala em cima delas. Naquele momento, me senti aliviado e ganhei forças para seguir em frente. E hoje estou aqui, defendendo o meu trabalho”.

Bom, nem preciso dizer o quanto fiquei emocionada e como esse fato ficou registrado em minhas memórias. Para o aluno, um simples elogio, corriqueiro, surtiu um efeito transformador: a ressignificação de uma memória. Cabe lembrar que nós não temos acesso a todas as memórias daqueles que conhecemos, sobretudo em ambientes de trabalho. Portanto, o elogio nunca é demais e esse simples gesto pode ter um efeito transformador na vida de uma pessoa. Devemos, com isso, cultivar não só as nossas, mas as memórias daqueles que estão a nossa volta.

 

 

 

Fonte Imagem Capa

Thifani Postali
Thifani Postali

Mestre em comunicação e cultura pela Uniso e doutoranda em multimeios pela Unicamp. Professora universitária, escreve artigos para jornais e participa do grupo de estudos Nami. Possui três obras publicadas, sendo duas coletâneas de artigos que discorrem sobre diversos temas relacionados à comunicação e cultura. Ama animais, cinema, música e videogames. Adora cozinhar, mesmo que seja só para ela.

  • Juliana Bianchi Cardoso

    Como sempre, um texto maravilhoso, que só me faz refletir que honra eu tenho, em poder aprender com a professora que é você. Não só na faculdade, mas para a vida. Obrigada por ser esta pessoa. Realmente nós só doamos o que temos e você é um dos melhores exemplos.